Alunos Clientes
por Edson Carli em 23/08/2010 na categoria Carreira e Comportamento e Geração Y
Normalmente quando escrevo meus artigos não menciono nomes de pessoas ou situações, pois mesmo neste mundo guiado por cliques de Google, acredito que as pessoas ainda têm direito a certa privacidade. A única exceção é feita para casos positivos ou para menção de créditos como é o caso do texto de hoje.
Maria Luiza é a única irmã de minha esposa, é química de formação e com um belo currículo incluindo quatro anos de Europa na área de pesquisas. Assim como a maioria dos químicos, físicos, biólogos e matemáticos do nosso país, tem a licenciatura como segunda profissão e atualmente é professora do ensino médio. É dela o mérito da expressão que ouvi faz poucas semanas: “aluno cliente”.
Ouvi pela primeira vez a expressão durante um almoço de família e parei para analisar o quanto isto trazia de verdade e reflexão. Entidades de ensino por décadas e décadas eram as mecas do conhecimento para onde enviávamos nossos filhos e até nós mesmos para onde seguíamos com a clara visão de que seríamos alunos. A etimologia da palavra aluno vem de lumens (luz) e a (negativa), ou seja, aluno antes de tudo é alguém que procura a luz (conhecimento). Como alunos, aceitávamos as regras da instituição, repeitávamos os professores (pelo menos a maioria deles) e assim construíamos internamente códigos de conduta e comportamento que nos serviriam durante os anos seguintes de nossa vida.
A instituição, assim como os professores, realmente avaliavam a retenção de conhecimento podendo, nos casos de insuficiência, reprovar o aluno, diferenciando inclusive as escolas entre “fracas”, fáceis de passar de ano, e as “fortes”, onde a coisa realmente era feia.
Pois bem, o que vemos agora no Brasil, apesar do discurso de democratização da educação, esta virou um belo e promissor negócio. Os alunos são enviados para as escolas não somente para aprender, mas para serem reconhecidos como alguém que passou por estas instituições. Veja por exemplo o grande número de bacharéis de direito que não conseguem passar no exame da ordem. Alunos de colégios renomados que não conseguem colocação no vestibular e necessitam de anos e anos de cursinho preparatório.
O fenômeno do “aluno cliente” modificou a relação aluno-professor-pai-instituição e agora os alunos, em sua grande maioria, sentem-se clientes da instituição, com todos os direitos de quem, como aquela personagem de programa humorístico brada: “Tô Pagano” sic. A economia tem suas regras e o mercado continuará desta forma enquanto o modelo estiver em equilíbrio.
O preço que todos nós pagaremos, ou já estamos pagando, é a convivência com gerações e mais gerações de jovens despreparados para o mercado, sem capacidade de absorver conhecimento tácito, confundindo inovação com arrogância. Minha experiência com estes jovens tem mostrado que este comportamento adquirido nos anos de colégio e universidade é carregado para os primeiros anos de carreira, sobretudo nos programas de trainee, criando uma nova criatura, o “funcionário-cliente”, que ingressa na empresa com o objetivo de ser servido por esta muito antes de servi-la.
Culpa destes jovens? Acredito seriamente que não. Mas é preciso estar atento para diagnosticar a origem das insatisfações e frustrações dos primeiros meses de carreira. Isto pode ter vindo na mochila da escola.
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