A função social da tia do café

por José Jayme Junior em 03/03/2010 na categoria Carreira Pública e Comportamento

A função social da tia do café

Quando me formei escutei uma pergunta, tanto de meu pai como de minha mãe, que não gosto de ouvir até hoje: “Filho, porque você não faz um concurso público?”.

O fato de odiar essa pergunta vem de uma vocação natural que tenho, e de muitos da mesma geração, pelo desafio. Repartições públicas são monótonas, chatas, não estimulam a criatividade, não desafiam os funcionários, não possuem metas agressivas e outros adjetivos vistos da ótica da Geração Y, seja esse conceito equivocado ou não. Mas em momento algum recrimino os porquês dos meus pais me fazerem essa pergunta até hoje. Eles (funcionários públicos) possuem uma estabilidade no emprego, não são afetados por crises globais ou locais e mantém um salário na média do mercado, quando não maior, mesmo que sem grandes aumentos ao longo da vida.

Antigamente as empresas privadas tinham um perfil semelhante, no que tange à continuidade do emprego quando comparamos com as empresas públicas. Quantos de nós conhecemos o pai daquele amigo que trabalhou anos como engenheiro da construtora Fulano LTDA, ou nosso tio aposentado como representante comercial da distribuidora Cicrano S.A. depois de uma vida inteira de dedicação? Pois o que antes era um mar calmo de ventos alísios soprando para o norte se tornou uma atmosfera tempestuosa, vez por outra semelhante a um maremoto, onde apenas os mais destemidos conseguem dobrar o Cabo da Boa Esperança da vida profissional. E são nesses mares agitados que muitos teimosos preferem colocar seu barco e velejar felizes da vida.

Infelizmente, aquele afeto, carinho ou até a mesmo paixão platônica que existia entre a empresa e o empregado deixou de existir. Primeiramente as empresas arremessaram aos cães a fidelidade para com seus empregados. Depois foi a vez de estes darem o troco e o que se veem hoje são relações de interesse mútuo onde um empregado que cometeu uma falha operacional é desligado sem serem levadas em consideração tantas outras vezes quando ele executou sua função além da sua capacidade. Há ainda o profissional que troca de empresa porque o PPL do ano foi abaixo do esperado quando, em anos anteriores, houve recordes na distribuição dos lucros.

Por vezes encontramos ilhas de bom convívio social dentro de uma corporação, o que faz com que seus componentes se mantenham atrelados à empresa rodeada de interesses puramente financeiros e chauvinistas. Trabalhei em uma empresa assim, e uma das poucas coisas que me mantiveram nela foram os conselhos na hora certa e o bom humor da ‘tia do café’, carinhosamente chamada por todos de dona Lourdinha. Consegui me manter na empresa por um bom tempo até surgir uma melhor proposta. Empresas com alta rotatividade, em sua maioria, se devem a essa falta de socialismo, espírito de união e de assistência pelo alto clero corporativo.

Um gordo salário mensal não sustenta um extenuante e às vezes irracional stress diário. Se as empresas quiserem a fidelidade que nossos pais deram as suas empresas no passado, ou mudam suas concepções de ambiente de trabalho com um foco mais humano, ou precisarão contratar muitas outras donas Lourdinhas.

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Sobre o autor:

José Jayme Junior é Engenheiro civil pela UFPE com especialização em Gestão da Qualidade e produtividade pela UPE/POLI, atuando na área Engenharia de Aplicação de Estruturas Metálicas.
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Comentários

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  • André Stabille em 3 de março de 2010 às 10:49

    José, cheguei até o seu texto através de um RT da @elinekullok, o próprio mundo em que vivemos com essa uma objetividade extrema fornecida por redes sociais e outras ferramentas, exemplifica bem como tem se dado as relações interpessoais no trabalho. Se queremos alguma informação da mesa do lado ao invés de falarmos, mandamos e-mail. As pessoas cada vez mais estabelecem essas relações de estrito interesse umas pelas outras, e se esquecem de quanto é bom sermos humanos…

  • Rodrigo Martins em 3 de março de 2010 às 11:18

    Vejo quatro possibilidades para um Y que consegue um emprego público:

    1. Rapidamente percebe que não está cercada de pessoas íntegras e se demite;

    2. Sabe onde está pisando, mas insiste. Tenta produzir mudanças, mas percebe que suas tentativas sempre são frustradas por estruturas engessadas compostas por funcionários acomodados e xenófobos e se demite;

    3. Fica onde está e se transforma em uma mistura de lesma com tartaruga com o freio de mão puxado;

    4. Ingressa na lista de pilantras.

  • José Jayme Junior em 3 de março de 2010 às 11:32

    Pois é André
    As décadas passam mas o afastamento humano continua. Antes baseado no materialismo excessivo bem retratado no filme Wall Street. Hoje, a internet ao mesmo tempo une e separa as pessoas. Email, criandos como uma ferramenta de comunicação, viraram protocolos e acordos e solicitações. O que vale é o que está escrito, “A empresas não vive de acordos verbais” já dizia um antigo companheiro de trabalho. Por isso que cada vez mais atividades vivenciais de grupo são importantes, ao ponto de algumas pessoas chorarem durante a dinâmica. Mas lutemos por dias melhores

  • Paula Carina de Araújo em 5 de março de 2010 às 1:23

    Olá José, discordo de você quando você diz que: “Repartições públicas são monótonas, chatas, não estimulam a criatividade, não desafiam os funcionários, não possuem metas agressivas e outros adjetivos vistos da ótica da Geração Y [...]“. Já pensei dessa forma algumas vezes, mas a experiência diária me fez perceber que eu estava totalmente errada. Com o tempo fui percebendo que na carreira pública os desafios são diferentes e que cabe aos profissionais realmente preocupados com suas atividades perceberem esses desafios. Um equipe interessada e liderada por um gestor que busca a inovação e a colaboração pode fazer muitas mudanças em qualquer ambiente, independente do setor, público ou privado. Somos nós que fazemos de um ambiente chato ou desafiador, a criatividade está em nós e cabe a nós demonstrar isso. Somos conhecidos como uma geração criativa, dinâmica e questionadora, mas o que estamos fazendo para provar isso? Não digo que é algo fácil, mas também não é impossível!
    Acredito que precisamos ter muito cuidado com generalizações, até mesmo no setor privado existem muitas lesmas e pilantras como citou o Rodrigo. Ah, discordo totalmente da opinião dele, essas possibilidades que ele citou podem acontecer, mas não são as únicas.

  • Bruno Mascarenhas em 5 de março de 2010 às 16:14

    Concordo parcialmente com a posição do JJJ, pois sei que há gente na repartição pública engajada para resultados e também sei (de carteirinha) que há muita gente no setor privado com as pernas para o ar, na zona de conforto. Estou terminando de escrever um artigo sobre isso, acho que essa discussão vai dar pano pra manga, o que é ótimo!

  • Luiz Francisco em 7 de março de 2010 às 23:34

    José, com todo respeito, discordo totalmente de você.
    Nós da geração Y não podemos ter a atitude da crítica pela crítica, ao contrário, temos que usar nossa criatividade e inventividade para mudar o rumo das coisas. Sempre criticamos a política, os governos,a corrupção, a qualidade do serviço público, mas não saímos de nossa zona de conforto para colaborar e mudar as coisas.Cabe ao Y inovar em seu ambiente de trabalho, seja ele público ou privado, e posso de garantir que as empresas públicas oferecem uma miríade de oportunidades de realização profissional,porém,cabe ao profissional inovar em seu ambiente de trabalho, ou torná-lo desafiador.
    Por fim, siga o conselho da Paula, e tome cuidado com as generalizações. Abraços

  • José Jayme dos Santos em 10 de março de 2010 às 7:50

    Como falei no mesmo texto: “…podendo eu estar errado ou não”. Com isso não quis generalizar e sim, abrir essa discurssão que está acontecendo agora. Conheço empresas sim, que são publicas e são modelos de gestão como a Petrobrás. A geração Y está ai para isso mesmo: inovar, mudar e instigar debates e mudanças de paradigmas, e foi isso que quis fazer quando “generalizei” com minhas palavras, onde na verdade eu quis era instigar um debate.
    Particularmente eu conheço uma infinidade de empresas públicas, já estagiei em uma delas, e muitos outros profissionais entre amigos e familiares, que são extremamente acomodados, e isso me frustra. Sem falar nas pessoas que estudam para concurso público que me dizem: “quero passar em concurso para ganhar dinheiro sem trabalhar muito”. Essas coisas me ferem os ouvidos a ponto de escrever o que escrevi de forma enérgica e fazer com que formadores de opinião como voces se levantem e gritem: “Isso não é bem assim!!”. Espero que mais e mais continuem se levantando e mudemos essa realidade que, aos meus olhos, ainda é muito forte.

  • Marcos Menezes em 21 de março de 2010 às 22:45

    Concordo plenamente com o comentário do Rodrigo Martins. Trabalhei por muito tempo em uma empresa terceirizada, lotado em uma das secretarias do meu estado, e pude constatar nesse meio tempo, que se o governo tem um trabalho, digamos assim, mais complexo, tem que contratar mão-de-obra terceirizada ou temporária. Não menosprezando o trabalho do servidor público. Mas a verdade é que, se algo vai mal, se está descontente, não pensa em melhorar e muito menos em mudar de trabalho. Fica apenas torcendo para que o tempo passe o mais rápido possível para se aposentar.

  • Daniel em 27 de março de 2010 às 13:48

    Bom, o fato de você “fazer o ambiente ao seu redor” tem sua verdade.
    Mas quando você chega no teto da carreira pública – referente aos cargos profissionais – você não poderá fazer muita coisa.
    Por exemplo, no seu cargo (digamos, engenheiro) de uma grande empresa estatal você chegou no topo do cargo/função.

    Acima de você só tem políticos. Você não consegue mudança se os caras de cima não quiserem. E normalmente eles não querem.

    Aí você tenta mudar todo o seu setor, mas não consegue incentivo, auxílios ou é até retailado pelos superiores (políticos).

    Por exemplo, esse engenheiro precisa de uma máquina para consertar um problema que pode ser facilmente arrumado, vai e compra com o próprio dinheiro e faz a engrenagem quebrada funcionar de forma extremamente eficaz. Consegue conter o ‘overflow’ no prazo apertado estipulado, que renderia grandes perdas contratuais se não fosse cumprido. Depois recebe em casa a informação de ter problemas legais com a empresa e passa por quase um “caso judicial empresa x funcionário” só porque você tentou fazer algo funcionar. Ah, e ainda é mal visto pelos superiores.

    Tem sua verdade essa de o funcionário poder fazer coisas para melhorar. Mas para tudo há uma fronteira. Aí você chega nesse patamar e começa a ver que certas merdas não mudam. Só se você entrar na política. Mas quem disse que os caras de cima (cargos políticos) querem você lá? Principalmente quando vai contra interesses ministeriais?

    hahahah Abraço! Senta e espera!

  • [...] mês publicamos aqui no Minha Carreira um artigo um pouco polêmico falando sobre a suposta comodidade nas repartições [...]

  • Daniele Rodrigues em 8 de abril de 2010 às 11:50

    Assustadoramente real seu texto. A frieza e, com o perdão das palavras, a postura “burra”, arrogante e equivocada do “padrão” para com sua equipe são cada vez mais nocivos à produtividade, ao crescimento profissional de ambos e, principalmente, à realização desses seres humanos que dedidam suas energias para o sucesso da empresa. Pensando nas premissas que pautam a sociedade 2.0, como interação e compartilhamento, é ainda mais preocupante pensar que boa parte do empresários não entende o básico – meu capital simbólico não tem preço.

  • Cristian em 8 de abril de 2010 às 12:06

    Concordo plenamente com o José. Me desculpem, mas qual motivo leva uma pessoa a fazer concurso público??? Acho que isso já finalizaria a questão. Já trabalhei em empresas públicas e privadas, mas com certeza a personalidade Y tem tudo a ver com o mundo privado: dinâmico, flexível, adaptável, desafiador, etc. etc. etc. Também concordo com o Rodrigo Martins. A maioria das pessoas que conheço que são funcionários públicos ou querem ser, são pessoas conformadas, que não querem desafios ou mudanças, querem aguás calmas. Eu consideraria isso apenas um perfil, não fosse o fato que dependo dessas pessoas para vários serviços públicos mediocrimente realizados. Existem exceções, mas são exceções, não regras. Uma vez fiquei revoltado em uma grande organização pública e fui falar com o Chefe da T.I. e saber o porque daquele ambiente tão monótono, parado, com tecnologias do tempo dos mainframes. Eu queria ver a REVOLUÇÃO acontecendo. Bem, ele falou que “ou agrada os colaboradores ou eles não trabalham e tudo fica ainda pior. No final ainda perde o posto de Gerente”. Sem mais comentários…

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