Entrevista: Patrícia Fragnani – Estudo, trabalho e experiências na Espanha

por Guilherme Tossulino em 03/07/2009 na categoria Entrevistas e Exterior

Entrevista: Patrícia Fragnani - Barcelona, Espanha

A entrevistada da vez é Patrícia Fragnani, 25 anos, designer gráfica, natural de Tubarão/SC. Formada em Design Gráfico pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, Patrícia passou 1 ano e 9 meses em Barcelona na Espanha, onde trabalhou, estudou e viveu inúmeras experiências.

Minha Carreira: O que motivou sua ida para Espanha?
Patrícia Fragnani: A vontade de ir para o exterior sempre existiu, e durante a graduação ganhou força graças à possibilidade de intercâmbio com universidades de outros países, e Espanha em especial, por ser referência na área de Design Gráfico. Porém, por ser bolsista em iniciação científica e participar de um projeto de pesquisa, optei por concluir a graduação antes de qualquer coisa.

Dois anos após a conclusão do curso sentia a necessidade de uma especialização. A empresa na qual trabalhava passava por um processo de reorganização nada positivo, o que me levou a ficar diante de três opções: seguir na empresa descontente, iniciar a busca por novas oportunidades ou viajar para a Espanha e realizar um desejo antigo. Não foi difícil escolher!

MC: Como surgiu a oportunidade?
PF: Há algum tempo eu buscava por pós-graduação e mestrado no exterior, especialmente os oferecidas na ELISAVA – Escola Superior de Design, localizada na cidade de Barcelona/Espanha. De modo geral, especializações deste nível sem qualquer tipo de bolsa auxílio custam caro.

MC: Como conseguiu financiar a viagem?
PF: Uma grande amiga, recém chegada em Barcelona, me informou que existiam inúmeras possibilidades de trabalho temporário na cidade. Fui pra lá e trabalhei um ano em um bar/coquetelaria no bairro El Born, reduto de artistas, charmoso e boêmio. Foi o tempo necessário para conhecer pessoas das mais diferentes culturas, viajar por algumas cidades da Europa, explorar Barcelona e me matricular na pós-graduação em Webdesign, da ELISAVA. Após esse período fiquei 3 meses no Brasil, esperando o visto de estudante e visitando familiares e amigos para, e em seguida, retornar à Barcelona para mais 6 meses de dedicação completa aos estudos.

MC: Como foi a preparação para viagem?
PF: Tinha o dinheiro suficiente para a passagem e os gastos básicos do primeiro mês (aluguel e alimentação). Além disso, me matriculei em um curso de Espanhol em Barcelona para facilitar a imigração e ajudar com o idioma. Com relação a estadia, o fato de ter uma amiga morando em Barcelona foi essencial. Fiquei um tempo morando com ela até me adaptar e estabilizar melhor.

MC: Quais foram suas maiores dificuldades na Espanha?
PF: Nem sei se posso dizer que tive dificuldades. Barcelona na minha opinião se encontra em uma parte privilegiada da Espanha, banhada pelo mediterrâneo, cercada de montanhas nevadas e praias paradisíacas, e um clima parecido com o sul do Brasil. Como toda grande capital é onde tudo acontece, vida cultural intensa e pessoas dos quatro cantos do mundo, de modo geral muito abertas e acostumadas com a presença de estrangeiros.

Culturalmente, a Catalunha é extremamente rica, com todas as suas particularidades e diferenças e claro, isto reflete no modo de vida, nas pessoas, mas acredito que tudo é questão de adaptação, saber respeitar as diferenças e aprender com elas, afinal de contas, essa é a graça de ir morar no outro lado do oceano!

Profissionalmente, acredito que as coisas poderiam ter sido mais fáceis se tivesse um planejamento. Como saí do Brasil com um visto de turista, não possuía uma autorização para trabalhar e isso limitou bastante a busca por trabalho. Esse foi o único momento em que pensei realmente se valeria a pena ir para o exterior, pois essa decisão levaria ao abandono temporário da carreira de Designer.

MC: Sabemos que a Espanha possui um problema com a imigração estrangeira. Isso é verdade, como eles tratam os brasileiros?
PF: É verdade. São muitos os imigrantes na Espanha, legais e ilegais. O número de ilegais é tanto que virou preocupação nacional, até certo ponto justificável, porque junto com muitos destes imigrantes vem a criminalidade e a pobreza. Nunca tive problemas por ser brasileira, mas sempre precisei justificar minha entrada no país.

MC: Qual era o seu conhecimento da língua da local da Espanha?
PF: Básico do básico, aquele adquirido no segundo ano do ensino médio. Por esse motivo me pareceu interessante a ideia de fazer um curso espanhol logo nas primeiras semanas. Além de uma ótima justificativa para imigração, contribuiu para a comunicação nos primeiros dias e a criação de um círculo de amizade importante para alguém que começa a se estruturar na cidade. O curso, mesmo de um mês, serviu de base para o posterior aprendizado no dia-a-dia.

No caso especial de Barcelona, assim como outras cidades da Catalunha, a outra língua oficial é o Catalão, da qual desconhecia por completo. Todas as informações na cidade aparecem primeiro neste idioma, mas com um pouco de esforço e dedicação é possível aprender muito da língua só com o convívio. Para os mais interessados e que buscam trabalho em empresas locais, conhecer o idioma é um diferencial e a prefeitura dá uma ajudinha, oferecendo cursos gratuitos para qualquer pessoa.

MC: Você conseguiu aproveitar ao máximo que a pós-graduação proporcionava?
PF: Acredito que sim. Pelo próprio formato do curso, somente 5 meses com aulas diárias, era aproveitar ao máximo ou nada. Fui preparada para uma dedicação exclusiva, abusei do conhecimento dos professores, participei ativamente das classes e claro, da companhia e experiência dos colegas. Queria ter aproveitado a oportunidade para realizar um estágio na área, mas com tantas atividades em grupo extra-classe, ficou complicado conciliar os horários.

MC: Como isso ajudou sua carreira? O saldo foi positivo ou não valeu à pena?
PF: Espero colher os frutos a partir de agora. Pessoalmente posso afirmar que me senti realizada com os conhecimentos adquiridos em tão pouco tempo. Apesar de ter estudado apenas 5 meses dos quase 2 anos vivendo em Barcelona, estar no ambiente repleto de referencias foi um diferencial. Pude vivenciar o design espanhol na sua essência, num ambiente que transpira design de qualidade, ver a forma como é valorizado, conhecer outros profissionais com um histórico distinto, além de participar em eventos de nível internacional, com pessoas renomadas e competentes. Até agora o saldo só tem sido positivo.

MC: Se pudesse voltar no tempo, faria diferente ou seria como foi?
PF: Já pensei muitas vezes as coisas que queria ter feito diferente, começando por ter planejado a viagem. Ai penso melhor em tudo o que eu perderia se isso tivesse acontecido, tanta coisa interessante e importante que aproveitei justamente por essa falta de planejamento. Foi um período importante, e se eu pudesse voltar no tempo faria exatamente a mesma coisa, sabendo hoje, que caminho tomar para atingir outros objetivos.

MC: Você pretende voltar para a Espanha por algum motivo?
PF: Pretendo planejar melhor uma viajem e, se possível, sair do Brasil com um visto que me possibilite atuar profissionalmente com Design. Já fui muito feliz como turista e estudante, ficou faltando essa experiência!

MC: Que recomendações você daria a quem pretende viajar para Espanha em busca de trabalho?
PF: Na situação econômica que a Espanha se encontra, não recomendaria uma viajem sem planejamento. Se informar sobre questões burocráticas como vistos de trabalho, estudos e intercâmbios é essencial para quem pretende passar mais tempo no país. Existem muitos trâmites, demorados às vezes, que complicam o que parecia simples.

E no mais, acreditar! A primeira vista parece um grande passo e algo até impossível, mas a busca por trabalho é sempre um desafio, no Brasil ou na Espanha, e qualquer dificuldade a mais que possa ser encontrada lá, terá sempre a recompensa de uma experiência inexplicável e fascinante

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Sobre o autor:

Guilherme Tossulino é bacharel em Sistemas de Informação e pós graduando em Gerenciamento de projetos. Atualmente atua como coordenador de TI no Instituto de Estudos Avançados (IEA) em Florianópolis e é um dos fundadores do Minha Carreira. Escreve seu blog pessoal (www.tossulino.com) e também faz presença no twitter no @tossulino.
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