Entrevista: João Reginatto – Carreira na Irlanda e dicas para quem deseja ir para o exterior

por Guilherme Tossulino em 29/04/2009 na categoria Entrevistas e Exterior

João Paulo Reginatto - Irlanda

O entrevistado da vez é João Reginatto, 30 anos, natural de Porto Alegre/RS. Mora em Dublin na Irlanda desde 2007, onde atua como Arquiteto de Integração de Sistemas na Dell. João também escreve o blog Tribo do Mouse, que aborda assuntos do dia-a-dia profissional de uma maneira bem humorada.

A entrevista a seguir mostra um pouco da trajetória de sua carreira e os motivos que levaram-no a trocar o Brasil pela Irlanda. Em algumas perguntas e respostas descobrimos quais foram suas principais dificuldades e desafios. Além disso, João deixou importantes dicas para quem deseja seguir carreira na Irlanda ou em qualquer outro lugar do mundo.

Minha Carreira: Há quanto tempo mora na Irlanda?
João Reginatto: Me mudei para a Irlanda em agosto de 2007, então já são 1 ano e 8 meses.

MC: O que motivou sua ida para a Irlanda?
JR: Sempre fez parte do meu plano de carreira ter uma experiência internacional. Gosto de uma frase do grande alpinista inglês George Mallory que quando perguntado sobre o porquê de escalar o Everest respondeu: “porque ele está lá”. Respondo de maneira semelhante quando me perguntam por que me mudei para a Irlanda.

MC: A estadia é definitiva ou outro país está nos seus planos futuros para a carreira?
JR: Tenho alguns objetivos de carreira a atingir no exterior e pretendo continuar por aqui enquanto houver motivação por conquistá-los. Mas não tenho preconceito quanto a ter que me mudar para outra localidade. Quando um profissional se livra do “cordão umbilical” que o liga à sua cidade natal, fica muito mais flexível às mudanças. Para seguir progredindo dentro de uma organização global, muitas vezes chega o momento de mudar-se para a matriz, que no meu caso seria os Estados Unidos, e quanto a isso não tenho restrições. Minha intenção, eventualmente, é retornar ao Brasil.

MC: Quais eram suas expectativas profissionais antes de ir para Irlanda? Isso já estava planejado?
JR: A minha vinda para o exterior ocorreu através de uma movimentação interna oferecida pela empresa. Como eu já tinha isso bem planejado há alguns anos e não houve troca de “empresa” – apenas uma troca de função e de localidade – acho que as minhas expectativas estavam muito bem alinhadas com o que acabei encontrando por aqui. A gente sempre espera um pouco de dificuldade no início e isso é normal – você precisa conhecer novas pessoas e uma nova forma de trabalhar devido à cultura do outro país. Mas no meu caso tive bastante sorte e tudo tem ocorrido conforme o esperado.

MC: Que tipo de preparação foi realizada antes da partida para Dublin?
JR: Eu li muito a respeito de Dublin e da Irlanda e tentei entrar em contato com profissionais trabalhando aqui. Também li bastante sobre o processo de mudança para o exterior, o que sempre ajuda (recomendo livros específicos sobre expatriação). Investi algum tempo em “tirar o pó” da minha rede de contatos no Brasil, principalmente porque tenho a intenção de eventualmente voltar. Tão importante quanto preparar a ida é manter o networking em dia para eventualmente preparar a volta.

MC: Você possuia conhecimentos suficientes da língua inglesa?
JR: Eu já dominava bem o inglês antes de vir para cá e recomendo fortemente para qualquer um que queira tentar uma oportunidade no exterior: domine a língua da localidade para onde você está indo antes de se mudar. Você já vai enfrentar muitas outras dificuldades, a barreira adicional da língua pode tornar a experiência frustrante.

MC: Houve problemas na adaptação ao clima?
JR: Tenho que confessar que sim. E olha que sou gaúcho e deveria estar acostumado com o frio. O que a gente acaba entendendo é que a relação entre cultura e clima é muito mais estreita do que pensamos. Quando no inverno, escurece às quatro horas da tarde, obviamente as pessoas não irão fazer tantas atividades “outdoor” como você estaria acostumado no Brasil. A popularidade dos pubs irlandeses certamente vem um pouco daí.

MC: Quais as principais diferenças culturais entre Brasil e Irlanda?
JR: O interessante da comparação entre o Brasil e a Irlanda é que temos muitas coisas em comum. A Irlanda era o “primo-pobre” da Europa até algumas décadas atrás. O que se vê aqui é o retrato de um país pobre que se desenvolveu absurdamente rápido. O irlandês em geral é muito amigável e adora uma conversa, mas ainda assim é bem mais reservado do que a maioria do povo latino. O pub é realmente a entidade maior em termos sociais na Irlanda, pois é ali que se contam histórias, se conhecem pessoas, se celebram aniversários, se comemoram as poucas vitórias nos esportes.

MC: Quais foram as maiores dificuldades profissionais e de adaptação a empresa na Irlanda?
JR: Nós latinos enfrentamos uma certa dificuldade quando trabalhamos com profissionais do hemisfério norte em geral. Costumamos misturar muito as relações pessoais e profissionais, o que nos traz vantagens e desvantagens. Não gosto de generalizar, mas de uma maneira a cultura na Europa é um pouco mais individualista. O trabalho em equipe no Brasil é certamente mais produtivo. Pensei que ao vir para cá teria um bocado de histórias para contar na Tribo do Mouse sobre as dificuldades de adaptação que um profissional enfrenta, mas a verdade é que acabei não tendo muito o que escrever nessa área.

MC: O profissional brasileiro está preparado para trabalhar no exterior?
JR: Acredito que muitos profissionais brasileiros hoje em dia têm plena capacidade de desempenhar um bom papel no exterior, principalmente na área de tecnologia. Quem está atualizado e domina o inglês tem condições de trabalhar em praticamente qualquer parte do planeta.

MC: Como você vê o mercado de TI na Irlanda para os brasileiros?
JR: A Irlanda é tradicionalmente um destino interessante para profissionais da área de tecnologia, as maiores empresas de tecnologia do mundo têm presença aqui. As áreas de serviços e farmacêutica também são fortes. Trata-se de um país que recebe muito bem os estrangeiros. O povo, em geral, já está acostumado com o caráter muiti-cultural da força de trabalho nas grandes cidades.

MC: Como a crise financeira mundial afetou a Irlanda?
JR: O mercado de trabalho no momento está totalmente paralizado em virtude da crise mundial, que por sinal afetou a Irlanda com força. Muitas empresas estão reduzindo suas operações por aqui e novos empregos simplesmente não estão sendo gerados. Ninguém sabe quanto tempo levará para que a situação volte a melhorar, mas o país de certa forma têm potencial para novamente tornar-se atrativo para imigrantes.

MC: O que muda no profissional brasileiro que trabalha um tempo no exterior?
JR: Uma experiência no exterior amplia a nossa percepção do mundo e abre perspectivas muito interessantes em termos de networking e carreira. Acredito que o profissional torna-se mais flexível e mais capacitado para resolver problemas. A nossa percepção das coisas e a maneira como enfrentamos as tarefas do dia-a-dia estão diretamente relacionadas à nossa experiência profissional, então passar um tempo no exterior certamente contribui para aumentar o nosso leque de opções cada vez que encaramos um problema. É um aprendizado de valor inestimável.

MC: Que dicas você daria a quem pretende seguir carreira no exterior e, em especial, na Irlanda?
JR: O planejamento é essencial, todo profissional precisa descobrir o que quer obter de uma experiência dessas (e isso muda totalmente de pessoa para pessoa) para poder avaliar a qualquer momento se os objetivos já foram alcançados ou não. Conheço muita gente, das mais variadas nacionalidades, que acabam infelizes, mas ainda assim relutam em voltar atrás exatamente pela dificuldade em avaliar o que conquistaram. Estudar muito o local para onde se está indo e entender que uma mudança dessas fará você passar por algumas etapas obrigatórias (desenvolvimento profissional no novo ambiente de trabalho, re-socialização, etc) também é muito importante. Por fim, recomendo que o profissional planejando passar um tempo no exterior aproveite a experiência para experimentar ao máximo novos estilos de vida. Está se mudando para a Irlanda? Então viva como um irlandês. Aproxime-se do cotidiano das pessoas do local, viva o ambiente, conheça novos lugares. No final são essas coisas que você vai levar na lembrança.

Você pertence a Geração Y ou conhece alguém que possui uma história interessante de carreira no exterior? Entre em contato conosco e sugira o nosso próximo entrevistado.

Leia também:

  1. Dicas para acertar na escolha da empresa para carreira Em outro post aqui no Minha Carreira abordamos os pós...
  2. Carreira no exterior: língua estrangeira Meu primeiro post listava uma série de fatores que devem...
  3. Antes de fazer carreira no exterior Fazer carreira no exterior é o sonho de muitos, independente...
  4. Novidade: Entrevistas sobre experiências no exterior Com o intuito de aproximar as experiências e vivências profissionais...
  5. Entrevista: Fernanda Thiesen – 3 meses na Holanda Como informado no post anterior, passaremos a ter entrevistas no...

Tags: , , , , ,

2º Prêmio BlogBooks! Nosso blog pode virar um livro. Vote!

Sobre o autor:

Guilherme Tossulino é bacharel em Sistemas de Informação e pós graduando em Gerenciamento de projetos. Atualmente atua como coordenador de TI no Instituto de Estudos Avançados (IEA) em Florianópolis e é um dos fundadores do Minha Carreira. Escreve seu blog pessoal (www.tossulino.com) e também faz presença no twitter no @tossulino.
2

Comentários

Acompanhe os comentários desse post e assine o Feed RSS.
  • Lili em 30 de abril de 2009 às 1:31

    Pra começar, o post já acerta na escolha do entrevistado. O “Tribo do Mouse” é um excelente blog, com textos ótimos.
    E como também não poderia faltar, a entrevista tem um ótimo conteúdo, principalmente sobre as mudanças no aspecto cultural, que podem parecer detalhes, mas são muito impactantes na hora de sair do Brasil.

  • Paula Carina em 2 de maio de 2009 às 13:44

    Ótimas dicas apontadas pelo João Reginatto. Parabéns pela entrevista Guilherme.

Deixe um comentário

Acompanhe os comentários desse post e assine o Feed RSS.

* Obrigatório

* Obrigatório, mas não será publicado